Um mês sem o 'Grandão'

Por admin

Postado em 01/02/2018 12:18:44



O passamento de Humberto Coutinho faz hoje um mês e a ficha ainda não caiu direito. Às vezes me flagro pensando nele como se entre nós ainda estivesse. Um dos homens mais dignos que conheci na minha vida, cidadão de bem, honrado - um exemplo a ser seguido. Aliás, não há um único dia em que eu não agradeça a Deus o privilégio de tê-lo conhecido melhor e ter podido me redimir das críticas que fiz a ele - a maioria exacerbada e sem um motivo que a justificasse. Estivemos próximos por pouco tempo - 5 anos, apenas -, mas numa relação marcada pela franqueza, confiança e respeito mútuo. O suficiente para conhecê-lo bem e aprender a admirá-lo. E poderíamos ter tido mais tempo. Visionário, duas décadas atrás ele previra que "um dia ainda vamos trabalhar juntos".   
 
Era 1994, nós morávamos na Praça Manoel Pinto da Mota, quase de frente à casa de meu sogro, ao lado da saudosa Dona Maria de Pinho. O quintal era enorme, improvisamos até um campo de futebol onde reuníamos uma galera para a pelada de todo final de tarde. Aquele era um ano eleitoral - eleição como a deste ano, para presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais.
 
Na época, era permitido aos candidatos transportar e alimentar eleitores no dia do pleito, e meu sogro pediu o quintal para montar uma estrutura de alimentação dos eleitores do deputado Humberto Coutinho. De manhãzinha cedo, quando eu estava saindo de casa, dei de frente com ele. Agradeceu o espaço, elogiou meu trabalho e disse que um dia ainda montaria uma rádio e nós trabalharíamos juntos. Confesso que, na hora, não dei muita bola.
 
SINAL VERDE
 
No entanto, a "previsão" se concretizou. Em 1997, Humberto Coutinho montou uma rádio e mandou me convidar para trabalhar na Sinal Verde FM - na época sem outorga, porém com todos os funcionários de carteira assinada e salário em dia. Não me reportava diretamente a ele. Durante o dia eu gerenciava uma loja de móveis e eletrodomésticos de uma grande rede do Piauí e meu horário na rádio era à noite. Portanto, quase não nos víamos. Na eleição de 98, discursei pela primeira vez num palanque eleitoral, durante um comício dele no bairro da Cohab. Saí da rádio e da loja também porque decidi que seria candidato a prefeito do meu Baturité (CE) na eleição de 2000.
 
VEREADOR
 
O tempo passou. Em 2008 fui eleito vereador de Caxias.
 
Durante meu discurso de posse, em janeiro de 2009, olhei para Humberto Coutinho - reeleito prefeito de Caxias com a maior votação da história do Município - e disse que estava ali para propor leis e fiscalizá-lo, mas que ele poderia ter certeza que, caso o Executivo enviasse propostas para o bem da população, eu seria o primeiro a defendê-las. Quando desci da tribuna, a deputada Cleide Coutinho, na época também primeira-dama, veio me cumprimentar e disse que eu não os conhecia direito.
 
Ela estava certa, realmente eu não os conhecia. E me dói na alma não ter dado a mim mesmo oportunidade de conhecê-los bem antes.
 
Dos 12 vereadores da época, eu era o único de oposição. Uma oposição firme, porém leal e respeitosa. Os anais da Câmara Municipal de Caxias registram o grande volume de projetos de lei por mim apresentados na Legislatura 2009/2012. E fiscalizei muito também. Denunciei precariedade de escolas e estradas. Até pedido de abertura de CPI apresentei para que o Parlamento apurasse boatos de irregularidades no Funprevi.
 
Vi que Humberto Coutinho era o prefeito mais ficalizado do Brasil. Por ele fazer oposição aos Sarney, equipes da Controladoria Geral da União (CGU), Tribunal de Contas do Estado (TCE-MA) e do Ministério Público (federal e estadual) semanalmente se revesavam em fiscalizações - verdadeiras forças-tarefas tomavam conta do Palácio da Cidade para escarafunchar as contas do Município. Nunca encontraram nada fora do lugar.
 
APROXIMAÇÃO COM HC
 
Onde quer que me encontrassem, tanto Humberto como Cleide Coutinho, sempre me tratavam de forma muito cordial e respeitosa. Fui percebendo o quão equivocado eu estava em relação ao casal. Em 2011, me aproximei politicamente do então prefeito Humberto Coutinho. Fui para a base do governo,  enquanto o colega Helton Mesquita foi para a oposição. Não sei as razões que levaram Mesquita a deixar a base de apoio do prefeito Humberto. Eu virei governista sem exigir qualquer vantagem de ordem material - nem empregos para parentes e/ou eleitores, algo tão comum no Brasil. Fui por convicção e sei que acertei ao assim me decidir, pois, sei, ganhei o respeito dele também.
 
TV DIFUSORA
 
Não fui reeleito em 2012 e Humberto Coutinho me convidou para dirigir a TV Difusora-Caxias, o que aceitei com muita alegria, pois aquele convite sinalizava um sentimento de confiança dele na minha pessoa. HC também sugeriu que eu conciliasse a Direção da TV com o cargo de secretário de Comunicação. Ele queria que eu ajudasse o sobrinho Leo Coutinho - eleito seu sucessor -, e para isso seria criada uma Secretaria Municipal de Comunicação que ficaria sob o meu comando, tudo já com o aval do prefeito eleito. Não concordei com a ideia.
 
Expliquei que ambos os cargos apresentavam forte incompatibilidade. A TV teria de ter liberdade para também apresentar eventuais erros do governo - a fim de não virar "chapa branca" -, e assim, ao elogiar a administração, o elogio não pareceria sincero, pois teria partido do "secretário", e que, caso eu fizesse alguma crítica no ar, sendo também secretário, ficaria parecendo que o governo era tão ruim que até o secretário critica.
 
Humberto Coutinho concordou na hora. E, de saída, me mostrou logo uma das suas muitas qualidades que o tornaram um grande líder: sempre ponderar e levar em consideração a opinião de aliados e subordinados. Jamais ele tomou alguma decisão referente a TV sem antes me ouvir. Foi assim o tempo todo. Inclusive na montagem das rádios, quando chamou a mim e Seu Raimundo Reis (Raimundinho - técnico e responsável pela montagem do Sistema Sinal Verde) para dizer que tinha comprado uma concessão e queria que montássemos a melhor rádio do Maranhão, com equipamentos de última geração e profissionais de qualidade. Assim foi feito!
 
A rádio sempre foi um antigo sonho de Humberto Coutinho. Pena que, devido a doença, ele tenha falado pelas ondas da emissora somente umas duas vezes, no máximo. Jean Alves - assessor pessoal e a pessoa que foi mais próxima de HC, fora a esposa e filhos - conta que todas as vezes que entrava no carro ia direto ligar o rádio.
 
RESPEITO PELAS PESSOAS
 
Na tarde da véspera do dia em que fora submetido à primeira cirurgia por causa do câncer, Humberto Coutinho me ligou para perguntar se estava tudo bem e se as contas (salários de funcionários, comissões de agências, impostos, água, luz...) estavam em dia. Seu respeito com funcionários e parceiros era sincero e constante. Se preocupava até com nossas famílias, se estava tudo bem em nossas casas. Um cara diferenciado.
 
LIVRO
 
Este texto está demasiadamente longo. Me dou conta que meu sentido de síntese se perdeu nesta narrativa. Meus colegas jornalistas mais próximos devem estar estranhando o tamanho desse artigo. Costumo apregoar que um bom texto precisa ser curto, direto, manchetado e sem redundância.
 
Talvez um dia - quando já estiver aposentado e morando em Guaramiranga (CE) - eu tenha de escrever um livro para contar minha história com esse grande homem chamado Humberto Coutinho.
 
CONVITE
 
Daqui a pouco, às 19h, tem a missa de 1 mês de passamento de Humberto Coutinho. Vai ser na Catedral de Caxias (MA). Estão todos convidados. Tenho rezado muito pela alma do 'Grandão'. Foi um homem íntegro, justo - creio que ele esteja em paz e num bom lugar.



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  2 comentários:

Por: Mabel Medeiros

Excelente texto caro Ricardo Marques.



Por: Conceição Rodrigues

Belíssimo texto, saudades do nosso Grandão.



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Sobre Ricardo Marques

Advogado (OAB/MA 9572)
Jornalista (904/MA - MTE)
Radialista (3586/CE - MTE).

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